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guitarrasdeportugal@gmail.com

 

  p/ correspondência:

  Guitarras de Portugal

  R. Dr. António Macedo, 72

  4435-211 Rio Tinto

 

 

        GUITARRAS DE PORTUGAL

                       CORDOFONES PORTUGUESES

 

               Francisco Gouveia

                     (cavaquinho, braguesa, requinta,

                      toeira, guitarra portuguesa)

 

     TEMAS MUSICAIS:  (clicar em cima do instrumento)

 

José António Neves

(guitarra clássica, baixo, teclas)

 

cavaquinho

 

 

braguesa

 

requinta 

 

toeira

 

guitarra

 

copyright © Francisco Gouveia e José António Neves

                            

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QUEM SOMOS

 

Somos apenas dois interessados na música popular portuguesa, interesse esse que nos tem levado a um estudo profundo sobre as nossas raízes musicais tradicionais, nomeadamente no que se refere aos instrumentos de corda. Interessa-nos particularmente redescobrir as tradicionais formas de execução, particularmente as mais avançadas, aquelas que eram praticadas pelos mestres populares, que os houve e muitos.

 

Eu, Francisco Gouveia, dedico-me à parte da execução desses cordofones (cavaquinho, braguesa, requinta, toeira, etc), tentando recuperar as mais completas formas de tocar, seguindo o rasto dos antigos tocadores. É uma tarefa complexa, pois grande parte desses mestres já cá não estão, contudo, ainda tive a felicidade de conhecer alguns e, dos que não conheci, ainda recuperei algo, aproveitando até ao mais pequeno pormenor, as lições de outros tocadores mais avisados que, também atentos, um pouco aqui, um bocado ali, conseguiram reter algumas características e originalidades das técnicas desses mestres.

 

Eu, José António Neves, dedico-me ao estudo puramente musical. Sou professor de música e há cerca de 30 anos que trabalho com Francisco Gouveia. A minha profissão, aliada ao cargo que actualmente exerço no Conservatório Regional de Música de Vila Real, instituição que ajudei a fundar e onde, pela primeira vez em Portugal, se criaram disciplinas que contemplam o estudo dos nossos instrumentos tradicionais, tem-me permitido pesquisar neste vasto campo que é o do folclore português. Nos vários grupos de raízes populares que dirigi, apliquei o que aprendi. A minha colaboração com Francisco Gouveia, para além do apoio musical teórico, tem como principal faceta acompanhá-lo musicalmente, quer com a guitarra clássica, baixo e contrabaixo, piano, teclados diversos e percussões.

 

NOTA FINAL: O trabalho incluído neste site é o resultado de alguns anos de estudo e dedicação à música instrumental portuguesa. Quisemos que fosse um site simples, puramente musical, aberto, onde qualquer um pudesse não só ouvir como guardar os nossos trabalhos. Entendemos que a música popular é de todos e deve ser divulgada graciosamente, pois ela assim é na sua origem. Por outro lado, as gravações são efectuadas sem truques, sem grandes arremedos de tecnologia, naturalmente, exactamente como se tivéssemos a tocar os temas num recital em casa do internauta.

Pretendemos manter o site em constante actualização e abri-lo aos tocadores populares.

Nada mais nos move se não o amor à música portuguesa e o prazer que é, executá-la.

 

Obrigado a todos os que se dispuserem a ouvir-nos.

 

Francisco Gouveia

José António Neves

 

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BIOGRAFIAS

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   FRANCISCO GOUVEIA

 

 

Francisco Gouveia, nasceu no Porto a 2 de Fevereiro de 1953, tendo, contudo, as suas origens na pequena aldeia duriense de Pinheiros, no concelho de Tabuaço. Aos 16 anos de idade começou a estudar guitarra clássica. Datam dessa altura, também, os seus primeiros escritos, alguns publicados no jornal do Liceu Alexandre Herculano onde fez o ensino liceal. De seguida, cursou engenharia civil na Faculdade de Engenharia do Porto, onde acabaria por se licenciar. Nessa época era assíduo nas tertúlias académicas e culturais da cidade, onde se relacionou com muitos músicos, escritores e intelectuais.

 

 Foi guitarrista e teclista em várias bandas de rock da cidade do Porto, actividade que manteve durante quase uma década. Pelo meio fica a sua actividade como professor e maestro, tendo dirigido a secção musical da Escola de Música da Ala Nun’Álvares de Gondomar, onde fundou e dirigiu uma orquestra de cordas, integralmente constituída por alunos dessa escola e que, na época, atingiu alguma notoriedade. Colaborou também na fundação de vários jornais académicos, para os quais escreveu e que, por motivos da apertada política daquele tempo, acabaram por desaparecer.

 

Depois da formatura em Engenharia, continuou a manter a sua actividade musical e literária, tendo então abraçado uma antiga paixão musical: a guitarra portuguesa. Como instrumentista viria a publicar um álbum de originais em 1988: “Uma guitarra sobre o rio”, dando início a uma carreira como concertista actuando em vários palcos nacionais. Entretanto, e paralelamente, vai exercendo a profissão de engenheiro civil, destacando-se na Administração Pública, onde desempenhou vários cargos de direcção na área municipal e, aproveitando os seus conhecimentos de planeamento territorial, elaborou alguns estudos sobre a região duriense, a maioria publicados na imprensa regional. Colabora como cronista e noticiarista em vários jornais e revistas regionais. Como escritor, as suas primeiras obras versam a temática duriense, a sua ambiência e história.

 

Na sequência de um prémio obtido num concurso de contos levado a efeito pelo Jornal de Notícias, decide escrever com mais assiduidade. Assim, numa periodicidade de uma obra por ano, edita os seguintes trabalhos: A Lenda do Douro (novela de 1997), Há Névoa no Rio (contos de 1998), As Escadas do Céu (romance de 1999), Livro dos Poemas Pobres (poesia em 2000), Pietà (romance em 2000), Meiga, como a voz da montanha (contos de 2002), O Jardim Secreto (romance de 2003), Trás-os-Montes, Trá-los Cá (poesia em 2004), Esboços Durienses (memórias, em 2006).

 

Como jornalista, mantém uma colaboração semanal nos jornais Notícias do Douro, Voz de Trás-os-Montes e em várias revistas regionais. Ainda como músico, há mais de 20 anos que é frequentador assíduo da oficina do mestre construtor Domingos Martins Machado onde se iniciou na execução dos cordofones populares portugueses, nomeadamente a viola braguesa, o cavaquinho, a requinta, a toeira, efectuando anualmente vários recitais sobre aquela temática. É um estudioso da etnomusicologia portuguesa com especial incidência nas técnicas instrumentais dos cordofones populares portugueses.

 

É sócio da Sociedade Portuguesa de Autores e membro da Associação Portuguesa de Escritores.

 

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    JOSÉ ANTÓNIO NEVES

 

 

José António de Matos Esteves das Neves nasceu no Porto em 1959 e reside em Vila Real. Possui o Curso do Magistério Primário, tendo cursado também Direito em Coimbra, e Contabilidade e Administração, no Porto. É, contudo, no campo musical que se distingue, tendo obtido a Licenciatura em Educação Musical que, depois, lhe dá acesso a outros graus académicos tais como: Mestre em Instrumentos e Técnicas ao Apoio do Desenvolvimento Rural pela UTAD, e Formador para as áreas da Educação Musical, Animação Cultural e Análise de Projectos Educativos, estando para breve o seu doutoramento em Didáctica da Música pela Universidade de Valladolid (Espanha), onde já possui o diploma de Estudos Avançados.

 

 Frequentou cursos com os Professores Jos Wuytack, Pierre Hauwe, Aurora Biscaia e Francisco Gouveia, bem como cursos específicos nas Universidades de Navarra e Complutense de Madrid. Entre outros, trabalhou com professores, maestros e compositores, tais como: José Prata, Mário Azevedo, Rui Ferreira, Teresa Macedo, Lurdes Andrade, Maria de Lurdes Alvares Ribeiro, Rui Soares da Costa, Ferreira Lobo e António Sérgio Ferreira. Foi professor de guitarra clássica nas escolas de música dos Bancos Nacional Ultramarino e Banco de Portugal, nas escolas Caiús, do Magistério Primário e da Fundação Calouste Gulbenkian, e na Academia de Música de Vila Real. Foi ainda professor de Iniciação Musical nos Colégios dos Cedros e Luso-Francês do Porto, na Academia de Rio Tinto, em Gondomar, na Academia de ballet de Virgínia Cardoso e no Infantário de Mateus em Vila Real.

 

È sócio fundador e membro da Direcção do Grupo Recreativo e Cultural “A Voz do Campo”, onde fundou a Tuna que actualmente dirige. Colaborou com a Orquestra do Norte como consultor pedagógico exerceu os cargos de Assessor para as áreas da Música e Dança da Delegação Regional de Cultura do Norte de Assessor na área cultural da Câmara Municipal de Vila Real onde  foi responsável pela criação e elaboração do projecto do Conservatório de Música, objectivo que é atingido em 2003. É, actualmente, Director Executivo da Fundação Comendador Manuel Correia Botelho, instituição de suporte do referido Conservatório Regional de Música de Vila Real, onde é membro da Direcção Pedagógica. É professor de Antropologia Musical e Pedagogia Geral na Licenciatura de Musica do Instituto Superior Estudos Interdisciplinares de Mirandela.

 

Possui ainda uma vastíssima obra editada, quer literária (ensaios etnográficos, de música popular, etc) quer musical, onde se destaca a composição de várias obras e colaboração em discos, programas de rádio e televisão, bem como a produção de inúmeros concertos e recitais, tais como: Orquestra Metropolitana de Lisboa, Orquestra do Norte, Orquestra Clássica do Porto, Orquestra Orff, Círculo de Ópera Portuense, vários grupos corais nacionais e estrangeiros, e vários instrumentistas de renome do nosso panorama musical, tais como Mário Laginha, António Pinho Vargas, Pedro Caldeira Cabral, Pedro Burmester, António Vitorino de Almeida, António Rosado, Gerardo Ribeiro, Lurdes Alves e Tobias Cardoso, entre outros.

 

Há mais de duas décadas que se dedica, juntamente com o etnólogo Francisco Gouveia, ao estudo da temática instrumental folclórica, sendo seu colaborador de eleição.

 

 

 

 

SOBRE OS CORDOFONES PORTUGUESES

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1 - NA DEMANDA DOS SEGREDOS DOS GRANDES TOCADORES POPULARES

 

Hoje em dia, quem ouve e vê um rancho folclórico, já pouco se entusiasma com a parte musical. Há muito que os grandes tocadores de cordofones debandaram dos palcos e tablados. Por onde andam, então? E porque se “extinguiram”?

Primeiro, há que entender o papel dos tocadores populares e a forma como, a partir de cerca dos anos 60 do século XX, foram deixando de tocar em ranchos. Alguns refugiaram-se nas Tunas, Rusgas e Tocatas. Outros remeteram-se ao anonimato da sua casa, do seu bairro, da sua aldeia. De facto, foi por volta da altura que referi que o Poder de então lançou uma campanha de publicitação do país onde os ranchos folclóricos eram parte integrante e fundamental. Foi a época do “rancho para cartaz turístico” sendo facilmente constatável, na altura, que qualquer cartaz a anunciar um evento em Portugal, tinha a fotografia de uma mulher aparentemente rural, vestida com o traje do rancho. Assim como era usual representarem-se os instrumentos populares misturados com “bouquets” de fogo de artifício, imagens de santos, fotos de monumentos, etc, etc. Foi também a época de introdução do acordeão francês no apoio musical desses grupos. Rapidamente, a sonoridade fortíssima destes acordeões abafaram praticamente todos os outros instrumentos. Mesmo as concertinas, que foram introduzidas no nosso folclore no início do século XX, também perderam importância.

 

As referidas concertinas, as diatónicas de botão, já possuíam um volume sonoro muito agressivo para a delicadeza dos cordofones que, contudo, foram aguentando o seu papel nos grupos musicais. Mas se as concertinas, por esse motivo, vieram alterar o quadro musical que até ali era desempenhado em exclusivo pelos instrumentos de corda, de tal forma que é aceitável a teoria de que foi nesse momento que começou o declínio dos cordofones, a chegada dos acordeões foi o golpe de misericórdia nos instrumentistas cordofónicos. A partir dali, os naipes de cordas dos ranchos praticamente deixaram de se ouvir. Mesmo com vários instrumentos (braguesas, violões, cavaquinhos, toeiras, etc) a tocarem ao mesmo tempo, a sonoridade que debitavam não era capaz de se fazer ouvir no meio dos acordeões e dos bombos. Resultado: perdeu-se qualidade e, muito brevemente, os melhores tocadores desistiram. Esta época, onde os ranchos folclóricos se confundiram com “grupos excursionistas” durou anos a fio. Só muito mais tarde, aquando da chegada ao mundo folclórico de estudiosos mais puristas, se tentou a reabilitação dos cordofones, tentando-se um equilíbrio mais rigoroso entre os diversos instrumentos. Não quero com isto denegrir totalmente o papel dos ranchos folclóricos de então, porque sob o ponto de vista da dança, dos cantares, da coreografia, da recolha de temas, algo de válido foi feito e muito boa gente integrou estes projectos, mas, sob o ponto de vista puramente instrumental, há sérias culpas a atribuir-lhes. Creio que, apesar do esforço de então (estamos a falar de fins dos anos setenta do século XX), grande parte da arte dos tocadores de cordofones já se tinha perdido. Contudo, alguns ainda resistiram. Os tocadores de cariz meramente rural, quase que desapareceram, ficando para a história e para a memória de quem os ouviu, um grupo especial de bons tocadores, já oriundos de estratos sociais um pouco mais elevados e que foram mantendo, e até desenvolvendo, técnicas e repertórios.

 

Exemplos destes artistas eram os comerciantes, os barbeiros, os taberneiros e, de uma forma geral, quem tinha profissão mais liberal, ou seja, quem pudesse despender algum tempo diário para a música. Ainda me lembro de ver pendurado a um canto do estabelecimento, um cavaquinho, um bandolim, uma viola. Enquanto esperavam a chegada de um cliente, estes músicos amadores iam executando as suas modas, treinando a destreza, entretendo quem passava. E havia também quem se dedicasse por carolice pura, no anonimato da sua casa. Eu tive a felicidade de conhecer ainda alguns, e numa altura onde estas coisas não me eram avessas e quando comecei a estar atento a estas manifestações. Não quero referenciar esta causa como a única que levou ao quase desaparecimento dos tocadores de cordofones. Outras houveram, nomeadamente a falta de apoios de então, o ostracismo que sempre este país usou contra aqueles que se dedicavam ao cultivo das suas raízes (que o dissessem Giacometi e Ernesto Veiga de Oliveira, se fossem vivos). Acima de tudo, e quanto a mim, faltou o incentivo, a razão de ser, o reconhecimento. Só muito mais tarde, já o século XX entrava na fase quase final, o país se foi apercebendo de certos crimes do passado e tentou reabilitar estas artes antigas. Papel fundamental na reabilitação das nossas tradições musicais, tiveram (e têm) os novos grupos de música popular portuguesa. Constituídos por gente de nível cultural elevado, têm conseguido repor alguma ordem de valores na música tradicional portuguesa. De uma certa forma, têm arejado o sótão bafiento onde se esconderam as nossas memórias rústicas. As tecnologias de hoje permitem, também, registos de qualidade. Todos eles formam, hoje em dia, os herdeiros do Grall da música popular portuguesa. E são eles que prosseguem a demanda. Nada está perdido, e novos ventos estão a varrer a música portuguesa. Pena é que, como no tempo dos grandes tocadores, o Poder continue a ignorá-los, os média continuem a não dar por eles, e, assim, o grande público continue sem os conhecer. Contudo, uma camada séria e alargada de interessados, tem vindo a aumentar e a alimentar as expectativas de todos os que se dedicam a esta parte da etnologia do povo português.

A demanda continua. Sem tréguas.

 

2 – AS ORIGENS

 

Olhamos para as mãos grossas e calejadas dos trabalhadores rurais e espantámo-nos como era possível que mãos assim pudessem debitar som de instrumentos tão delicados como são o cavaquinho ou a braguesa – por exemplo. Mas espantámo-nos mais ainda quando vemos que eram esses mesmos rurais que preenchiam as bandas e filarmónicas por esse país fora, lendo pautas e executando instrumentos de sopro com alguma destreza. É certo que tem de se encarar a realidade: nunca um músico com semelhantes características manuais poderia ascender a ser um virtuoso. Com os cordofones passava-se a mesma coisa. E é verdade que os melhores tocadores, como disse, emanaram do meio mais aburguesado. Contudo, as origens continuavam a estar na ruralidade mais dura. Por exemplo: creio que as origens das afinações dos cordofones remontam a este facto singelo: havia que afinar o instrumento para que fosse possível a execução dos acordes necessários ao acompanhamento do canto (função primária para que teriam sido criados) e, ao mesmo tempo, fosse fácil executar esses acordes.

 

É assim que descobrimos que nas afinações mais antigas (talvez as originais), com um ou dois dedos da mão esquerda se faziam pelo menos três acordes (tonal, mais a quinta acima e abaixo). Posteriormente, estas afinações foram sendo alteradas, havendo algumas (como na braguesa a Mouraria Velha), que é uma afinação já muito técnica, intelectualizada (com a devida distância pela utilização do termo). Seja como for, e independentemente das alterações que foram surgindo ao longo dos anos, o certo é que, creio eu, o objectivo era uma economia de meios (de dedos, no caso), pois como facilmente se pode entender, a execução de mão esquerda tinha sérias limitações. Mas, estas limitações compensá-las-ia o tocador com técnicas deslumbrantes de mão direita. Exemplo desta genialidade, é o “varejado” do cavaquinho. Era assombroso como, num pequeno instrumento de quatro cordas, de escala limitadíssima, fosse possível integrar o acompanhamento, o contraponto e a melodia tudo ao mesmo tempo. Executado com perfeição, o “varejado” dá a sensação de estarmos a ouvir vários instrumentos ao mesmo tempo: acompanhamento e melodia como se fossem debitados por instrumentos diferentes. Assim como, na braguesa, a aplicação destas técnicas a um cordofone mais amplo e brilhante, traduziu-se em interpretações mágicas.

 

Digo eu que, para entendermos o espírito da verdadeira música tradicional, é necessário entender e descodificar todas estas matrizes. E o assunto é problemático dado que, muitas das vezes, as maneiras de tocar variavam de tocador para tocador não sendo raro, como na culinária tradicional, a existência de “segredos” próprios. No fundo, para um músico avisado e com formação, não seria difícil perceber o que estava a ouvir. E ai de nós se assim não fosse!: sem gravações, quem poderia apreender e transmitir esses “segredos”?

As origens são simples. Os resultados partilham a solidez de toda a música popular. Fiquemos por aqui.

 

3 - O BINÓMIO TOCADOR / CONSTRUTOR

 

Foram os construtores que, de facto, fizeram evoluir os instrumentos populares. Não só porque a maioria deles também tocava, porque as suas oficinas eram ponto de encontro de interessados e entendidos, mas também porque nunca se acomodaram. E eram os tocadores mais exímios que, perante algumas limitações, quer sonoras quer técnicas, dos cordofones, aconselhavam o construtor a experimentar esta ideia, a aplicar uma madeira diferente, a corrigir uma deficiência numa parte do instrumento, enfim, a melhorar a qualidade do mesmo. Das madeiras iniciais com que eram construídos (pinho, tília, choupo), madeiras baratas e disponíveis, foram, a expensas próprias dos construtores com todos os riscos de investimento que tal acarretava em que já ganhava pouco, experimentando a cerejeira, a nogueira, o mogno, e, posteriormente, o pau-santo e o pau-preto, para além do embelezamento, com a utilização de madrepérolas, marfins, etc. Desde logo a qualidade sonora melhorou como da noite para o dia, e o som por vezes agaitado, choco, metálico, deu lugar a sonoridades mais cheias, mais doces, mais amplas.

 

Algumas transformações a nível das técnicas de construção, como a maior amplitude das caixas, um melhor aperfeiçoamento dos braços, substituição das cravelhas pelo carrilhão, a introdução de cavaletes de apoio, etc, originaram também, maiores exigências instrumentais. Lembro-me ainda de, há mais de duas décadas, estar horas na oficina de Mestre Domingos Machado, em Tebosa, discutindo pormenores, por vezes à volta da recuperação de um instrumento mais antigo e que me parecia com algum defeito aqui ou ali. Aliás, se há exemplo da perfeita conjugação de esforços entre os tocadores e os construtores, esse pode ser representado pelo citado e a sua impressionante oficina (30 metros quadrados com a maior densidade de memórias da música tradicional!).

 

Entretanto, pena é que os construtores estejam a desaparecer. O artesanato musical parece não despertar interesses. Mas, se sob o ponto de vista da execução instrumental, podem existir estudiosos porque se trata de uma actividade que tradicionalmente é cultivada por amadores, já na parte da construção não é possível o amadorismo. A profissionalização é necessária, essencial. E a profissionalização desta arte é impossível sem apoios oficiais. 

 

4 - O QUE RESTA?

 

No fim da demanda, fica a vontade de não deixar morrer a memória de um povo. As suas melhores memórias. E que melhor memória haverá do que um vira bem executado num cavaquinho, uma chula numa braguesa, uma balada numa toeira?

 

Trata-se das raízes de um povo. Trata-se de nós. Ninguém enfrenta o futuro sem ter os pés bem assentes no passado. Uma escada só se sobe, seguramente, de degrau a degrau.

 

E afinal, uma Nação até pode existir sem uma bandeira, sem um hino, sem um rei, sem lei, até mesmo sem um território. Mas uma Nação não existe sem a sua cultura popular. Esta é o cimento dos Povos. O que os une e mantém.

 

Francisco Gouveia

Março de 2007

 

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GUITARRA PORTUGUESA

 

 

Uma Guitarra Sobre o Rio

(instrumental para guitarra portuguesa escrito por Francisco Gouveia e gravado/editado em 1988)

 

Francisco Gouveia (guitarra portuguesa)

José António Neves (viola)

 

- Uma Guitarra Sobre o Rio

- Pelas Margens do Rio Lima

- Canção do Tejo

- Madrigal do Rio Claro

- Sonata para uma Guitarra Só (sem acompanhamento)

- Subindo o Douro

- Romance Ribeirinho

- Toada do Barqueiro

- Ribeira

- Guitarra do Mondego

 

 

Concerto de Natal do Colégio Luso-Francês

(Porto 1990)

 

Francisco Gouveia (guitarra portuguesa)

José António Neves (viola)

Nuno Alexandre (viola baixo)

 

- Adesta Fidélis (John Wade)

- Avé Maria (Schubert)

- Glória in Excelsis Deo (anónimo)

- Silent Night (Franz Gruber)

- Comboio da Neve (Francisco Gouveia)

- Canção da Montanha (Francisco Gouveia)

- Over the Rainbow (Harold Arlen)

- Primavera (Francisco Gouveia)

- Sonata em Dó M (s/ acomp.) (Francisco Gouveia)

 

 

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CAVAQUINHO

 

CAVAQUINHO MINHOTO

 

Pequeno cordofone de 4 cordas, com cerca de 52 cm de comprimento, 12 trastos, de escala rasante com o tampo. Não há certezas quanto à sua origem, defendendo alguns estudiosos que derivou dos tetracórdios helénicos, outros levantam a hipótese de ser um herdeiro do requinto espanhol – viola muito semelhante ao cavaquinho. Seja como for, foi no Minho que este instrumento teve o maior acolhimento em Portugal, tendo-se transformado num “cartão de visita” do folclore daquela região. Há referências de construção deste instrumento, em Guimarães e Braga, desde há cerca de 300 anos. Inicialmente era construído em madeira de pinho, tília ou choupo, passando depois a utilizar-se também a nogueira e a cerejeira. Actualmente, os melhores construtores usam o pau-santo, madeira que melhorou substancialmente a qualidade acústica do instrumento. A sua afinação tem muitas variantes, não sendo raro que cada tocador invente a sua própria afinação. Contudo, as duas afinações mais usadas são (da corda aguda para a grave): ré, si, sol, ré e mi, dó sustenido, lá, lá. Toca-se utilizando três técnicas: ponteado, rasgado e varejado. O ponteado é a forma de solar, nota por nota, o rasgado toca-se em acordes e pode ser simples, duplo ou triplo, conforme se utiliza só o indicador da mão direita, indicador e médio ou indicador, médio e anelar. Da mesma forma o varejado utiliza, para além dos dedos referidos, também o polegar. Uma boa execução, geralmente, mistura as várias formas de tocar, conforme o efeito que se pretende obter.

 

Francisco Gouveia (cavaquinho)

José António Neves (guitarra clássica, baixo, piano, teclado, percussões)

 

TEMAS:

Originais

 

- Gales (Francisco Gouveia)

 

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GUITARRA BRAGUESA

 

GUITARRA BRAGUESA

 

Guitarra muito popular e exclusiva do Entre Douro e Minho, originária da vihuela espânica medieval, de comprimento variável entre os 72 e os 90 cm, com 5 cordas duplas e escala rasante com o tampo. Tem uma variante, a viola amarantina, que difere desta somente na abertura do tampo que, na braguesa é redonda e na amarantina formada por dois corações simétricos. Possui várias afinações sendo que a altura das mesmas pode variar conforme o instrumento que acompanha. Tido inicialmente como instrumento de acompanhamento, não era raro verem-se executantes exímios que tocavam elaborados temas onde a melodia se misturava com o acompanhamento e o contraponto. As suas afinações mais usadas são (do agudo para o grave): lá, mi, si, lá, ré, e, também: sol, mi, si, lá, si, onde o si (terceira) é afinada uma oitava acima, sendo assim a corda mais aguda. Esta última afinação é apelidada de “Mouraria Velha” e é, quanto a nós, a afinação que mais a beneficia sonoramente. Há várias técnicas de execução, algumas mais rústicas, em rasgado simples, outras mais elaboradas, muito semelhantes ao varejamento do cavaquinho, contudo, os antigos bons tocadores aplicavam, como base, técnicas derivadas da guitarra, a que juntavam o rasgado e o varejamento. É a viola mais “brilhante” do património cordofónico português e a mais popular, tendo resistido à erosão do tempo pelo que ainda hoje é a viola portuguesa mais tocada.

 

Francisco Gouveia ( braguesa)

José António Neves (guitarra clássica, baixo, harmónio)

 

TEMAS:

 

- Romance (Francisco Gouveia)

- Dança de Roda (popular adaptado Francisco Gouveia)

- Vira Ponteado (popular)

- Vi-te Nua na Ribeira (popular adaptado Francisco Gouveia)

- Vira de Sta. Marta (popular)

- Valsinha (Francisco Gouveia)

- Variações em Dó M - s/ acomp. (Francisco Gouveia)